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Uso de documento falso (art. 304): a CNH comprada, a blitz — e as três regras jurisprudenciais que decidem esses processos

Uso de documento falso (304): portar não é usar, exibir na blitz é, RG do irmão é o 308 (menor), autodefesa caiu (S.522), foro pelo órgão (S.546) e a perícia que absolve.

O uso de documento falso é o crime da hora errada: a CNH "comprada de despachante" apresentada na blitz, o diploma exibido no emprego, o certificado entregue no processo. O art. 304 pune fazer uso de qualquer dos documentos falsificados ou alterados dos tipos anteriores — com a mesma pena da falsificação correspondente (documento público: 2 a 6 anos; particular: 1 a 5; e assim por diante). E é um tipo governado por três regras jurisprudenciais que o senso comum ignora: portar não é usar (a CNH falsa na carteira, sem exibição, não consuma o 304); exibir mediante exigência da autoridade É usar (a blitz não é escusa); e usar o documento verdadeiro de outra pessoa é crime diferente e menor (art. 308) — a desclassificação mais valiosa da família.

Esta página organiza o sistema: o que é "uso", quem responde (e quem não responde duas vezes), a autodefesa que a Súmula 522 enterrou, a competência que muda de Justiça conforme o guichê (Súmula 546), a perícia obrigatória que absolve quando falta — e as defesas reais, do erro de quem foi enganado à falsificação grosseira.

O que é "usar" — as duas primeiras regras

O tipo exige a utilização efetiva do documento perante alguém — apresentá-lo, exibi-lo, juntá-lo, fazê-lo valer. Daí as duas regras que decidem flagrantes:

  1. O porte simples não é uso: a CNH falsa guardada na carteira, o diploma falso na gaveta — sem exibição, o 304 não se consuma (a discussão remanescente é a participação na falsificação anterior, adiante);
  2. A exibição sob exigência configura o uso: a jurisprudência é pacífica — quem, solicitado pela autoridade na blitz ou na abordagem, entrega o documento falso, usa. A "obrigação de apresentar" não descriminaliza a escolha de apresentar o falso (a alternativa lícita — declarar-se sem o documento — sempre existiu). É a regra que frustra a defesa mais intuitiva do tema, e é melhor sabê-la antes da blitz do que depois.
Uso de Documento Falso — advocacia criminal em Curitiba
A balança sobre os livros: técnica e estudo sustentam cada tese da defesa.

Quem responde — e quem não responde duas vezes

  • Quem falsifica E usa responde só pela falsificação: o uso pelo próprio falsário é desdobramento impunível (post factum) — pune-se o 297/298/299, não a soma;
  • Quem usa o falso feito por terceiro responde pelo 304 — o cliente da "CNH de internet" responde pelo uso (com a pena do 297: 2 a 6), e a encomenda consciente pode ainda caracterizar participação na própria falsificação, conforme a prova do ajuste;
  • Quem usa sem saber não responde: o dolo é elementar — o documento recebido de terceiro como legítimo (o histórico escolar "providenciado" pela instituição fantasma, o certificado entregue pelo intermediário) sustenta o erro de tipo, que se prova com a cadeia de obtenção: o que se pagou, a quem, com que aparência de regularidade. Ceticismo dos tribunais existe; prova documentada da boa-fé o vence.

A terceira regra: o documento verdadeiro de outra pessoa (art. 308)

Usar o RG verdadeiro do irmão parecido não é o 304 — é o art. 308 (uso de documento de identidade alheio), com pena muito menor (detenção de 4 meses a 2 anos). A distinção é a natureza do papel: falso (304, com a pena da falsificação) × autêntico, mas de outrem (308). Nos flagrantes de identidade trocada, essa desclassificação vale anos — e a perícia que atesta a autenticidade do documento é, paradoxalmente, a melhor amiga da defesa.

Na mesma família de fronteiras: atribuir-se identidade falsa verbalmente (sem documento) é a falsa identidade do art. 307 — e a velha tese da "autodefesa" (mentir o nome para esconder antecedentes) está enterrada: a Súmula 522 do STJ e a repercussão geral do STF fixaram que a conduta é típica ainda que em alegada autodefesa. O direito ao silêncio protege o calar — nunca o mentir a identidade.

A competência que muda no guichê (Súmula 546)

Onde corre o processo? Pelo órgão a quem o documento foi apresentado, não pela natureza do documento (Súmula 546 do STJ): a CNH falsa exibida à PRF leva o caso à Justiça Federal; a mesma CNH na blitz da PM estadual, à Justiça Estadual. O detalhe define juízo, rito e até as praxes de acordo — e é a segunda conferência de qualquer defesa (a primeira é a perícia, adiante).

A perícia obrigatória — e a falsificação grosseira

A falsidade material deixa vestígios — e vestígio exige exame (art. 158 do CPP): sem o laudo documentoscópico atestando a falsidade, a materialidade do 304 claudica, e absolvições por ausência de perícia são rotina nos tribunais. Na outra ponta, a falsificação grosseira — a que não engana ninguém de mediana atenção — é atípica do 304 (crime impossível pela inidoneidade do meio), com a inversão conhecida: se, grosseira, ainda assim enganou e rendeu proveito, o caso migra para o estelionato. O laudo, portanto, responde as duas perguntas do tipo: é falso? e é capaz de enganar? — e requerê-lo, leê-lo e impugná-lo é o núcleo da defesa.

Acordos e desfechos

Sem violência e com mínimas de 1 (particular) e 2 (público), o 304 conversa com o consenso: ANPP cabível nas duas vertentes, suspensão condicional na do documento particular — sempre depois da ordem técnica: perícia (existe? conclui?), desclassificação (308? grosseira?), dolo (erro de quem foi enganado), consunção (falsário não responde pelo uso; e a Súmula 17 quando o uso se exaure no estelionato — a página irmã detalha), competência. No flagrante da blitz, o roteiro das páginas de urgência vale integralmente — com um acréscimo específico: não "explique" a origem do documento na hora; a cadeia de obtenção é exatamente a prova que decide entre o dolo e o erro, e ela se apresenta com a defesa, não no susto.

Atendimento

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Perguntas frequentes

Dúvidas sobre uso de documento falso

Fui parado na blitz com CNH falsa. Apresentar por exigência do policial é crime mesmo assim?

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É — a jurisprudência é pacífica: a exibição mediante solicitação da autoridade configura o uso. E se a abordagem foi da PRF, o processo corre na Justiça Federal (Súmula 546). A defesa real está na perícia, na origem do documento (dolo × erro) e nos acordos que a moldura comporta.

Comprei a CNH pela internet achando que era "despachante". Tenho defesa?

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O dolo é elementar: quem demonstra ter sido enganado — o pagamento com aparência de regularidade, a intermediação crível, a ausência de "atalhos" evidentes — sustenta o erro de tipo. A prova é a cadeia de obtenção documentada; o ceticismo judicial se vence com papéis, não com aflição.

Usei o RG verdadeiro do meu irmão. É o mesmo crime?

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Não — documento autêntico de outrem é o art. 308 (detenção de 4 meses a 2 anos), muito menor que o 304. A perícia que atesta a autenticidade do documento é, aqui, a melhor prova da defesa: desclassifica anos.

Menti meu nome na abordagem, sem mostrar documento. É crime?

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É — falsa identidade (art. 307), e a tese da "autodefesa" está enterrada pela Súmula 522 do STJ e pelo STF: mentir a identidade para esconder antecedentes é típico. O que protege é o silêncio — nunca a mentira sobre quem você é.

Quem falsificou e usou responde pelos dois crimes?

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Não — o falsário responde pela falsificação; o uso próprio é desdobramento impunível. Já quem usa o falso feito por outro responde pelo 304 (com a pena da falsificação correspondente) — e a encomenda consciente pode somar participação no falso.

Não fizeram perícia no documento. O processo se sustenta?

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Dificilmente — a falsidade material deixa vestígios, e vestígio exige laudo (art. 158 do CPP): sem exame documentoscópico, a materialidade claudica e a absolvição é o desfecho recorrente. Requerer e impugnar a perícia é o núcleo desta defesa.

O documento era uma falsificação tosca. Isso ajuda?

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Ajuda — a falsificação grosseira, incapaz de enganar, é atípica do 304 (crime impossível). O cuidado é a inversão: se, tosca, ainda assim enganou e rendeu proveito, a capitulação migra para o estelionato. O laudo responde as duas perguntas.

Qual é a pena — e cabe acordo?

+

A do documento correspondente: 2 a 6 (público), 1 a 5 (particular), entre outras. ANPP cabível nas duas vertentes (mínimas 2 e 1, sem violência) — depois da ordem técnica que absolve de graça: perícia, desclassificação para o 308, dolo e consunção.

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Conteúdo revisado por Dr. Vinicius Ribeiro Zimmermann, OAB/PR nº 118.934 · Última revisão: julho/2026.
Conteúdo informativo e educacional, elaborado com base na legislação e na jurisprudência vigentes. Não substitui a análise do caso concreto por advogado(a).

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